terça-feira, 15 de outubro de 2013

ADÃO E EVA TIVERAM FILHOS NO ÉDEN?

Escrevi, pela graça de Deus, uma apostila sobre as “doutrinas bíblicas batistas”. O intuito foi, tão somente, subsidiar a EBD (Escola Bíblica Dominical) com material doutrinário no nível de estudo bíblico para irmãos simples e desejosos de “estudar a Bíblia” de forma condensada. A maior parte das lições está formatada em tópicos apenas. Tópicos para serem aprofundados e discutidos em classe de EBD. Portanto, não é material para teólogos ou estudantes de teologia. O aprofundamento, as convicções de minha fé, estão sendo trabalhadas com os irmãos... lá na EBD. 

Recebi censura pública de estar ensinando heresia. “Olha seu ponto de vista está errado, chega até ser uma heresia... (...) de bobagens teológicas que aparecem no face...” afirmou textualmente um colega de ministério. Em outras palavras, fui taxado de herege por afirmar e crer em duas coisas: a) que Adão e Eva não tiveram filhos antes do pecado da desobediência; b) crer na Onisciência e Onipotência de Deus e afirmar que, nessa Onisciência e Onipotência, Ele sabia que o primeiro casal ia pecar e, por isso, não permitiu que tivesse filhos no Éden. Graças a Deus estamos em um país onde ainda se pode discordar. Graças a Deus, milito e defendo uma denominação onde se pode discordar. Discordar... respeitando a hermenêutica alheia. Discordar e pesquisar... pois pode ser que minha certeza absoluta esteja errada.  Estou sempre aberto a aprender.  Todavia, por questão de ética, jamais discordarei de outro colega – afinal, moramos na mesma cidade – de forma pública. Fá-lo-ei em particular. É simples questão de ética. Afinal, reitero; minhas convicções podem estar erradas. E isso vale para os dois lados.  Então, quero esclarecer o que creio. 

Textualmente escrevi na apostila os seguintes tópicos: a) “O casal fora formado inocente. Quando os dois optaram pela desobediência... ambos perderam a inocência e perceberam a nudez (3:7). b) Deus na sua absoluta Onisciência e Onipotência... não permitiu que tivessem filhos antes do pecado. O pecado, se assim fosse, não os atingiria”.   Eis aí a minha “heresia” e a “bobagem teológica (...) do face”. 

Reitero que a Bíblia é, na sua íntegra, a inerrante Palavra de Deus. Nisto Creio. Mas, sempre vou respeitar interpretações hermenêuticas diferentes – afinal é o livre-arbítrio e a volição humana dadas pelo Criador -, mas, não posso deixar de defender bíblica, teológica, exegética e hermeneuticamente o que creio, embora esteja aberto a aprender sempre. Inclusive aprender que possa eu estar errado. 

Comecei a lição assim: “O pecado já estava presente no universo antes da queda de Adão e Eva. Satanás já o introduzira quando, no seu orgulho, quis ser igual a Deus. Por isso mesmo que ele foi o agente da tentação. A preocupação nesta lição é a origem do pecado na raça humana” (grifos meu).

Então, afirmei até aqui as seguintes verdades bíblicas: 1. O pecado já existia e estava presente antes do pecado de Adão e Eva. 2. O agente da tentação do primeiro casal foi satanás, pois, na verdade, foi ele que introduziu o pecado no cosmos. 3. O primeiro casal não teve filhos antes de serem expulsos do Éden. 4. Quando pecaram, reconheceram a nudez; perdendo a inocência. 5. Se o casal tivesse filhos antes do pecado, este não os atingiria. 6. Deus é Onisciente e Onipotente. 

Não vejo como alguém possa entender que essas afirmações não são bíblicas. Apenas má vontade. A questão é parte da afirmação: “(...) não permitiu que tivessem filhos antes do pecado. O pecado, se assim fosse, não os atingiria”. O nobre colega fez textualmente a seguinte afirmação: “Se fosse como está na sua lição seria assim a ordem divina: ‘Esperem pelo pecado e aí crescei e multiplicai”.

Bem, tal afirmação eu não fiz! Até porque estaria mentindo e o texto bíblico não diz isso. Bem, de qualquer forma a afirmação do nobre colega foi feita no pretérito imperfeito, há de se entender o porquê! Ora, se o pecado já penetrara no “Cosmos”... lá na eternidade, óbvio que o pecado já existia. E, sendo Satanás o provocador do pecado na esfera do Cosmos, ele – diz a Bíblia – foi o agente tentador de Eva e Adão.

Os capítulos 1 e 2 de Gênesis tratam da criação em geral e do ser humano em particular. O capítulo 3 trata do pecado do primeiro casal pelo agente Satanás. Ora, se o pecado não tivesse penetrado no Cosmos, como Satanás seria o agente? O capítulo termina com o casal sendo expulso do Éden e Deus coloca querubins e uma espada flamejante e movedora, impedindo que o casal chegasse à árvore da vida.  Interessante que o verso 22 diz textualmente: “Agora o homem se tornou como um de nós, conhecendo o bem e o mal. Não se deve, pois, permitir que ele tome também do fruto da árvore da vida e o coma, e viva para sempre” (NVI). Eu não posso dizer que o texto “dá a entender que o ser humano se tornou Deus”; pois o texto é específico “... o homem se tornou como um de nós...”.  Essa seria uma exegese barata e uma hermenêutica desprovida de sanidade, num profundo desconhecimento de regras básicas de interpretação. Da mesma forma foi o uso do pretérito imperfeito quando alguém diz: então “... seria assim a ordem divina: ‘Esperem pelo pecado e aí crescei e multiplicai”. Valha-me Deus!

Em qualquer momento, até a expulsão do Éden, encontra-se alguma informação ou afirmação sobre a existência de filhos.  Entretanto, no capítulo 4, a afirmação é clara sobre o relacionamento sexual do casal e o consequente nascimento dos filhos.  O fantástico teólogo (já falecido) e professor do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil Antonio Neves de Mesquita (p. 113), em seu livro “Estudo no Livro de Gênesis” afirma: “Podemos notar, de passagem, que Adão e Eva não tiveram filhos antes da queda, bem como os filhos de Noé, que, sendo casados, só tiveram filhos depois do dilúvio (10:1)”. Evidentemente, eles tiveram filhos apenas após o pecado do primeiro casal. 

Outra afirmação de censura que recebi foi: “Mas, na colocação ‘não permitiu antes do pecado’ dá a entender que esse pecado já estava no plano de Deus e não estava”.  Vou repetir “ipsis literis” o que eu escrevi: “Deus na sua absoluta Onisciência e Onipotência... não permitiu que tivessem filhos antes do pecado. O pecado, se assim fosse, não os atingiria”. Qualquer pessoa bem intencionada e conhecedora de regras elementares de interpretação de texto na língua portuguesa – não estou falando de hermenêutica ou exegese – entende que a afirmação de que “dá a entender” não faz o menor sentido. A afirmação é categórica e “não dá a entender” nada além de que Deus é Onipotente e Onisciente. E como tal, sabia que o casal iria pecar. E, por isso mesmo, não permitiu o nascimento de filhos. Uma raça pecadora e uma raça incontaminada, vivendo juntas, são incompatíveis com qualquer teologia bíblica, por mais absurda que seja. 
Isso seria negar a Onisciência e Onipotência de Deus. E isso nada tem a ver com determinismo ou eleição, nem mesmo com a doutrina do lapsarianismo presbiteriano. Os batistas, desde sempre, entendem que “todos foram eleitos para a salvação” e esta fica condicionada a pessoal escolha (volição) de cada pessoa em aceitar, ou não, a Jesus Cristo como Senhor e Salvador. 

O Dr. R. N. Champlin em seu comentário “O Antigo Testamento Interpretado Versículo por Versículo (livro 7 – p. 4913) diz: “O Eterno Agora.  O conhecimento humano necessariamente acompanha a sucessão dos eventos, seguindo as relações entre as causas e seus efeitos. Deus, porém, vive fora do tempo e pode ver qualquer coisa do começo ao fim. Deus vive no ‘eterno agora’, e isso quer dizer que, no sentido estrito, para Ele não há passado, nem presente e nem futuro. A mente divina abrange tudo”. Negar que Deus não sabia que o ser humano iria pecar é negar a Onisciência e a Eternidade de Deus.  Para não ter duas raças – uma pecadora e outra inocente – Deus, na sua Onisciência e Onipotência assim procedeu.  Isso está muito longe do sentido de “dar a entender que esse pecado já estava nos planos de Deus” é absurdo.  Em suma, eu concordo totalmente com meu crítico, pois, de verdade, nem de longe creio que esse pecado já estava nos planos de Deus... todavia, Ele sabia que isso ia acontecer.  Na sua soberana e absoluta sabedoria tomou a decisão acertada. Por que?

Quero me aprofundar um pouco mais, depois dos esclarecimentos anteriores. Deus criou o homem e a mulher e ordenou que se multiplicassem. Fica evidente que eles poderiam ter filhos desde o começo. Eram fecundos e tinham a benção de Deus para o relacionamento sexual e a gravidez.  (Gn. 1:27-28). Todavia o Deus Onisciente e Onipotente sabia do que iria acontecer. Em Gn. 3:7 (NVI) leio: “Os olhos dos dois se abriram, e perceberam que estavam nus; então juntaram folhas de figueira para cobrir-se”. Veja a pergunta do Criador: “Quem lhe disse que você estava nu? Você comeu da árvore da qual lhe proibi comer (Gn. 3:11 NVI)? 

Ora, até o pecado eles não tinham qualquer consciência da nudez, eram inocentes. “Quem lhe disse?” Pergunta Deus. Obvio que o Onisciente Deus sabia o que tinha acontecido.  Mas, foi no instante do pecado de desobediência que tiveram a consciência de toda desgraça que arrumaram para si e seus futuros descendentes. Pode-se, inclusive, subentender-se que, embora fecundos e em condições de procriação, não tivessem ainda tido relações sexuais, pois eram inocentes. Isso não está claro no texto – e o contrário também não – mas, pode supor-se assim, sem cometer heresia. 

Uma análise mais profunda de todo o restante do texto de Gênesis 3, fará perceber que em todas as coisas, dali para frente, o autor bíblico inspirado pelo Espírito Santo, usa o tempo do verbo indicando o presente e o futuro, jamais o passado. Senão vejamos:

a. Multiplicarei grandemente tua dor... com dor darás à luz filhos. Aconteceria no presente e futuro. 
b. Maldita serás (serpente), andarás sobre o ventre, comerás pó. Aconteceria no presente e futuro. 
c. Porei inimizade entre ti e a mulher. Aconteceria no presente e futuro
d. Esta ferirá a cabeça. Aconteceria no presente e futuro. 
e. Tu lhe ferirás o calcanhar. Aconteceria no presente e futuro.
f. Com dor comerás dela todos os dias.  Aconteceria no presente e no futuro.
g. Espinhos e cardos te produzirá. Aconteceria no presente e no futuro.  
h. Do suor do teu rosto comerás. Aconteceria no presente e no futuro. 
i. E em pó te tornarás. Aconteceria no presente e no futuro. 
j. Deste ouvidos (...) e comeste da árvore. Única menção ao passado, ou seja, já consumado. 
Todas as conseqüências fazem menção ao presente e ao futuro. Deus está a dizer: De agora em diante estas coisas acontecerão, por causa da tua desobediência. Não antes... doravante!

Logo no capítulo seguinte, após a expulsão do jardim, já participando de todos os sofrimentos do pecado, Adão teve “relações com Eva” (primeira vez que isso é dito), e esta concebeu (Gn. 4:1).  

Apenas um parêntesis para esclarecer um ponto defendido por muitos estudiosos. É o caso do texto de Gênesis 3:16. Alguns estudiosos defendem que esse texto seria indicativo de que Eva já tivesse tido parto (sem dor) e que os próximos seriam com dor. Isso é improvável. Deus apenas diz que “multiplicaria” a dor do parto. Isso não implica em que ela já tivesse sentido as dores de parto, nem de que já tivesse filhos. Na descrição da expulsão não há qualquer menção a mais pessoas. Se eles tivessem tido filhos antes do pecado adâmico, não haveria a natural transmissão da herança do pecado de Adão e Eva a esses filhos. Um filho antes da entrada do pecado contradiz, a meu ver, as afirmações de Paulo em Romanos 5:12-18 e Rm. 3:23. Sem aprofundamento exegético, apenas a simples menção do que Paulo diz em Rm. 5:18 é suficiente: “... assim como uma só transgressão resultou na condenação de todos os homens, assim também um só ato de justiça resultou na justificação que traz vida a todos os homens. Ora, o pecado adâmico trouxe condenação para TODOS. É incoerência lingüística, teológica, bíblica, exegética e hermenêutica entender que alguém concebido antes do pecado recebesse, também, a condenação. 

Se Adão e Eva tivessem tido filhos antes do pecado, eles não seriam pecadores. Aí o problema seria enorme. Como explicar que uma linhagem de inocentes, sem conhecimento do bem e do mal poderia viver num mundo degenerado pelo pecado? Afinal, eles nada tinham a ver com esse tipo de mundo. Aliás, existe por aí uma teoria teológica de que existem duas linhagens de humanos: uma de pessoas pecadoras e outras de pessoas sem pecado. Ora, por obviedade natural, Deus não precisaria ter enviado Seu Filho para morrer pelos pecadores. Apenas precisaria ter usado um dos descendentes dessa linhagem dos “sem pecado” para que fosse o “Cordeiro sem pecado”.

Jesus, concebido pelo Espírito Santo de Deus, veio da linhagem de Sete (por meio de Maria), o filho que Adão e Eva tiveram após a morte de Abel. Analisando a linhagem de Sete, sem dúvida, eles eram igualmente pecadores. É o caso de Davi, Salomão e todos os outros.

Uma simples pergunta: Por qual motivo Deus tiraria os filhos do primeiro casal do Éden, concebidos antes do pecado dos seus pais? Se isso acontecesse, eles seriam absolutamente estranhos no mundo condenado pelo pecado, já que não teriam consciência do bem e do mal e, ainda, estariam no seu estado de inocência. Se, contrariamente a isso, eles permaneceram no Jardim, não estariam lá até hoje? Afinal, a proibição de comer da árvore da vida foi específica ao casal (Gn. 3:22).

O Dr. Luiz Sayão, pastor batista, teólogo e responsável direto pela tradução NVI da Bíblia, respondendo a perguntas em um programa da rádio Transmundial sobre a questão dos filhos do primeiro casal antes do pecado afirmou: “A Bíblia não menciona o nascimento de nenhum filho. Se Adão e Eva tiveram filhos antes do pecado, se esperaria que isso fosse mencionado no texto bíblico”, e continua argumentando que seria estranho que o primeiro bebê da história humana não fosse mencionado na Bíblia. 

Quero, ainda, citar mais um texto bíblico: Ezequiel 18.1-2; 14-18. Deus cobra o pecado do pai no filho? O verso 18 é categórico: “Ele não morrerá por causa da iniqüidade do seu pai; certamente viverá”. Se a Bíblia não se contradiz, e nisso eu creio piamente; se Adão e Eva tiveram filhos no Éden, antes do pecado de desobediência, estes eram perfeitos, inocentes e, na suas integralidades de criação divina, “imagem e semelhança” de Deus. Relembro ainda Romanos 5:12: “Portanto, da mesma forma como o pecado entrou no mundo por um homem (Adão, grifo meu), e pelo pecado a morte, assim também a morte veio a todos os homens (grifo meu), porque todos (grifo meu) pecaram. 

Supondo que Adão e Eva tivessem filhos antes do pecado, estes não pecaram e, portanto, não caíram juntos com os seus pais. Assim, continuaram dentro da vontade inicial de Deus.
Problema: Na hipótese dos filhos terem existido antes do pecado adâmico, existiriam duas descendências: uma pecadora (Adão e Eva) e seus descendentes pós-pecado; e outra sem pecado. Como ficaria o apóstolo Paulo com a afirmação de Romanos 3:23 e 5:18.

Para encerrar, aí vão alguns textos bíblicos sobre a verdade absoluta de que Deus conhece tudo, todos e sempre na sua Onisciência, Eternidade e Onipotência: Salmo 139; Jeremias 23:24; Gênesis 21:33; Salmo 90:2; Habacuque 1:12; Romanos 1:20.

Deus não é limitado pela falta de conhecimento. O Conhecimento que Deus tem, faz parte de Sua própria natureza e não é adquirida. Portanto, seu conhecimento é completo e absoluto, estendendo-se para o passado e o para o futuro sem fim (Romanos 11:33-36; Jó 11:7-8; Isaías 40:28; Salmo 147:5).

Também não é limitado pela falta de espaço. É muito mais que estar em todos os lugares ao mesmo tempo, porque Deus é todos os lugares. Ele está inteiramente, e não apenas parcialmente, em todos os lugares e em todos os tempos (eternidade). Assim, obrigatoriamente, a Onipresença está ligada diretamente à Onisciência. O conhecimento que Deus tem faz parte da Sua natureza e envolve a presença de Deus consciente em todos os lugares e em todo tempo. 

Limitar o conhecimento de Deus na criação, fazendo conjecturas de que Deus não conhecia o que iria acontecer com Adão e Eva, após Satanás ter tentado ser igual a Deus e ser expulso do céu, passando a ter o seu domínio por aqui, é duvidar da Onisciência, Onipotência e Eternidade de Deus. 

Confundir o conhecimento Onisciente e Eterno de Deus sobre o pecado, com um suposto “plano de Deus” para que o homem pecasse é absolutamente imoral. De qualquer forma, o que faltou, foi interpretar corretamente o que coloquei na lição da EBD. Creio piamente, que estamos do mesmo lado. O da verdade da Bíblia, a inerrante Palavra de Deus.  Uma coisa sei... não sou e nunca serei herege. Posso até, interpretar equivocadamente alguma coisa... herege, jamais! Amém. 





sexta-feira, 11 de outubro de 2013

DE LEVITAS, DE MÚSICA GOSPEL E ESQUISITICES EVANGÉLICAS! (Parte I)

Este articulista é pastor batista faz trinta e dois anos. Nos últimos anos tem se tornado prática a denominação de “Levita” àqueles que “comandam” o “louvor” na igreja.  Também a moda pegou entre inúmeros “cantores” e “grupos musicais” da “música gospel”. O foco principal está nas igrejas neopentecostais e pentecostais; entretanto, a moda chegou, também, às igrejas históricas. Alguns até se intitulam “sacerdotes”, sem qualquer conhecimento do que isso signifique. Tenho, constantemente, ouvido que tais ministrantes da música são “Levitas do Senhor”. Há demasiada facilidade em judaizar o evangelho, num retrocesso teológico estapafúrdio em detrimento do Novo Testamento e seus ensinos onde o cerne é o amor, a graça e a cruz de Jesus Cristo. 
Após profunda meditação, resolvi fazer algumas observações sobre o assunto.  Sei que corro o risco de ser execrado pelos “irmãos levitas” modernos. Mas, não posso deixar de escrever sobre aquilo que está na Palavra de Deus. Não posso deixar de tentar esclarecer a falta de conhecimento e estudo da Bíblia. 
Pra início de conversa esclareço que não há em mim qualquer tentativa de crítica pela crítica, nem ofensa a quem quer que seja.  Lembro que os rabinos-sacerdotes-fariseus-saduceus judaicos dos dias de Cristo eram profundos conhecedores da “Palavra”: leis mosaicas, escritos, salmos e profetas. E, justamente estes, foram os maiores enfrentamentos de Cristo. Conheciam... mas, não sabiam. Conheciam... mas, não viviam. O que importava a eles era o que “achavam certo”; por interesses próprios, pelo poder da titulação sacerdotal e outros motivos escusos. 
Também aqui, o assunto não é salvação. Ninguém está julgando a salvação de qualquer “levita moderno”. Por certo, muitos saíram do mundo do pecado, da prostituição, do homossexualismo, do crime, da corrupção e, agora, estão nas igrejas. Muitos servindo a Cristo de verdade... outros, se aproveitando da ingenuidade ou má vontade de líderes que apenas querem se locupletar da posição, e ou, benesses financeiras. 
Não estou aqui afirmando que “se vai pro inferno” por ser “levita moderno”! Creio integralmente na Bíblia como a Palavra de Deus! Sei que há diferentes formas exteriores de adoração, de louvor, de ministração, de motivação.  Sei, também, que Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e eternamente (Hb. 13:8).  Só quero lembrar que ser pastor, apóstolo, bispo, sacerdote, levita, ou seja lá o que for, não é garantia de salvação, nem de vida aos pés de Cristo. Peço a você que leia atentamente o que disse o próprio Jesus em Mateus 7:21-23. 
Então, como amante da Palavra e da Vontade de Deus e, na certeza de que é minha obrigação como “arauto” das verdades bíblicas, tentar esclarecer usos inadequados de ministérios e que tais, vou entrar por esses meandros e, muitas vezes, ínvios caminhos. Não há o que se contestar do agir de Deus... entretanto, tudo o que Deus quis revelar aos homens, fê-lo através de Sua Palavra, a Bíblia. Nada mais deve ser acrescido. Tudo que se precisa saber e fazer, lá está contido. É a ela que precisamos nos ater e não a esquisitices modernas ou retrocessos ao Velho Testamento. Os verdadeiramente salvos se importam com a verdade da Palavra e não a “ensinamentos de homens”. 
Começo aqui, pois, uma série de artigos sobre o assunto. Não tenho a petulância de querer fechar questão, nem mesmo de convencer alguém. É apenas uma pena que escreve em prol daquilo que ensina a Bíblia. Creio que a pureza desta precisa ser preservada. O assunto é longo. Quero tratá-lo à luz da Bíblia. Por isso, volte ao blog até que todo estudo esteja concluído... embora, sempre estará inconcluso. Afinal, a Bíblia é uma fonte inesgotável, justamente por ser a infalível Palavra de Deus. 
Ouvi, dia desses, um líder dizer que tivera uma revelação de Deus sobre costumes judaizantes. Isso é desmerecer grandemente a graça de Deus e tudo aquilo que Jesus fez. “Pois todos os Profetas e a Lei profetizaram até João” (Mateus 11:13 NVI). O Novo Testamento interpreta o Velho, para o cristão. Não o inverso. Paulo combateu grandemente isso. Ele enfatiza com grande clareza a “Lei do Espírito e da Vida” em Cristo. Vou começar pela “música gospel” até chegar aos levitas. 
O GOSPEL E SUAS ORIGENS. O termo “Gospel” tem sua derivação do inglês antigo “God-spell” que, significa “boas novas”. Óbvio que traz a alusão ao “evangelho bíblico” que é “as boas novas” de salvação por meio de Jesus Cristo. O estudante bíblico sabe que o Novo Testamento foi escrito em grego koinê. Evangelho, do grego “euangelion” literalmente vertido para o inglês é eu (good) + angelion (message) que em português traduz-se “boa mensagem”. O grego clássico nos informa que “angelion” fazia referência a gorgeta que era entregue ao mensageiro/portador de uma “eu” (boa) mensagem (antigo correio). Nos dias de Cristo a palavra foi cunhada como “boa mensagem”. Portanto, o termo faz referência a literatura cristã antiga, como “boa mensagem”.
Marcos foi o primeiro evangelho a ser escrito. Entretanto, antes dele Paulo, o apóstolo verdadeiro, usou o termo “euangelion” em I Coríntios 15:1 ao dizer “... o evangelho que lhes preguei...”. No verso seguinte Paulo assevera que a salvação deles deu-se pelo “euangelion”. No século II da era cristã o bispo Justino Mártir em seu escrito “1 Apologia LXVI” (por volta do ano 155) asseverou: “... os Apóstolos, nas suas memórias escritas por eles, as quais são chamadas de Evangelhos”. 
““ Euangelion” na LXX (septuaginta, grifo meu) ocorre somente no plural, e talvez somente no sentido clássico de uma recompensa pelas boas notícias” (II Sm. 4:10; 18:20,22,25-27). No Novo Testamento o termo aparece apropriadamente às circunstâncias das boas novas Messiânicas (Mc. 1:1, 14), provavelmente derivando este novo significado do uso euangelionem (Is. 40:9; 52:7; 60:6 e 61:1)” (Henry Barckay Swete, Introdução ao Velho Testamento. p. 456-57).
No Novo Testamento “evangelho” indica a proclamação da salvação de Deus por meio de Seu Filho Jesus, ou seja, pela mensagem do “ágape” proclamada por Jesus. Este é o sentido original no Novo Testamento e continua a ser usada ainda hoje.  Portanto, “gospel”, em última instância é “boa mensagem ou boa nova”. 
A MÚSICA GOSPEL E SUA RAIZ. Açambarcando vários estilos e nomes variados, a “música gospel” vem, na sua essência, da mesma raiz: a música cristã negra da América do Norte. Isso remete à lembrança do estilo fantástico do “negro spiritual”, com letras fantásticas e melodia sentida, sofrida e que imprimia uma espécie de catarse do sofrimento da escravatura e da libertação em Cristo. A consequência foi a proliferação de lindos corais e conjuntos no seio da igreja Afro-americana que foi exportado para a igreja cristã em todo mundo, dada sua beleza e profundidade. 
A influência foi tão grande que a indústria milionária da música americana extrapolou da sua intenção genuína inicial, para uma preocupação quase única de “ganhar dinheiro”. Recebendo o rótulo de “gospel”, a música atingiu todas as camadas, principalmente as mais populares e continua a crescer vertiginosamente, sob os auspícios de um marketing muito bem feito. Entre os anos de 2003 até 2008, sete grandes gravadoras formataram divisões específicas e especiais para produzir a tal de “música gospel”. O que menos importava era a qualidade teológica e a fidelidade à sã doutrina; mas sim, o vender bem. Fora isso, as produções independentes praticamente duplicaram. A vendagem da “música gospel” simplesmente triplicou: foi de 180 milhões de dólares para 500 milhões em menos de dez anos. Essas informações são da revista Gospel Today. Boa parte das letras é escrita por gente que nunca leu a Bíblia.  
Segundo a Wikipédia, Thomas A. Dorsey (1899-1993) é tido, por muitos, como o “pai da música gospel”. Ele foi importantíssimo pianista de Blues, conhecido artisticamente como Geórgia Tom. No site http://www.georgiaencyclopedia.org/nge/Article.jsp?id=h-1603; Ian Hill, da Universidade da Geórgia dá detalhes sobre o pianista, escrevendo textualmente: "Geórgia Tom" Dorsey, primeiro ganhou reconhecimento como um pianista de blues na década de 1920 e, mais tarde, se tornou conhecido como o “pai da música gospel” para o seu papel no desenvolvimento, publicação e promover o blues gospel”.
Dorsey era filho de um pregador itinerante e, desde cedo, foi exposto à música cristã de formato emocional. Sua mãe era respeitada organista. Por isso, Dorsey aprendeu a tocar bem cedo na vida. Com nove anos a família mudou-se para Atlanta, onde foi exposto à música secular e absorveu performances musicais famosas, tendo aprendido com pianistas famosos. Foi apenas um passo para tocar em teatros e bordéis e festas profanas em Atlanta, onde ganhou apelido de "Barrel House Tom", por óbvias razões. 
Mudou-se para Chicago já com 17 anos (1916) e, quatro anos depois, publica sua primeira composição. Era a década de 1920 e ele ganha fama com a música “blues”. Em 1921 Dorsey retoma a música religiosa influenciado por W.M. Nix, que ouviu cantar na Convenção Batista Nacional. Em 1922 registrou sua primeira peça religiosa e, com isso, tornou-se diretor de música da Igreja Batista New Hope.  Foi aí que ele fundiu a música sacra com sua técnica de “blues”, tornando-se o “pai da música evangélica blues”. Todavia, a necessidade de dinheiro afastou-o novamente da música “gospel”.
DORSEY E A MÚSICA GOSPEL. No final da década de 1920 ele ganha popularidade na comunidade religiosa após Willie Mae Ford Smith ter cantado “Se você ver meu Salvador”, dele; na Convenção Batista Nacional. Em 1931 foi contratado para organizar um coral na Ebenezer Baptist Church em Chicago. Um ano depois foi contratado pela segunda maior igreja de Chicago: Pilgrim Baptist. No mesmo ano Dorsey organizou e dirigiu grande performance para três corais de “blues gospel”. Isso lhe rendeu a fundação da Convenção Nacional de Coros Evangélicos da qual ele foi presidente até sua aposentadoria em 1983.
Sua esposa, Nettie Harper, morreu em 1932 durante o parto. Seu filho morreu no dia seguinte. Isso o inspirou a escrever “Take My Hand, Precious Lord (Segure Minha Mão, Precioso Senhor)”, sua mais famosa peça musical e a primeira canção religiosa a espelhar, liricamente, a emoção pessoal em suas composições de “blues gospel”. Essa música teve influência decisiva na vida de Dorsey. Quando Martin Luther King foi assassinado em 1968, a cantora Mahalia Jackson foi convidada a cantar e entoou essa música de Dorsey. Foi o marketing e a explosão que precisava a “música gospel”. 
Nos anos 1930 e 1940, Dorsey fez célebres parcerias com Mahalia Jackson, Della Reese e Ward Clara, mostrando ao mundo o trabalho “gospel” de Dorsey e, por isso, foi cunhado como “pai da música gospel”.
Continuo a reflexão no próximo número, se Deus assim o permitir.